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REVIEW: Call of Cthulhu (PC, PS4, XB1)

Call of Cthulhu
Data de lançamento: 30 de Outubro de 2018
Desenvolvedora: Cyanide
Publisher: Focus Home Interactive
Plataformas: PC, PlayStation 4, Xbox One
Preço: U$59,99

Com a licença oficial do RPG de mesa baseada nos mitos cósmicos de H.P Lovecraft, Call of Cthulhu da francesa Cyanide tem como premissa trazer para o contexto dos videogames, uma sensação parecida com aventuras de RPG’s tradicionais, fazendo com que as qualificações do protagonista e a natureza de suas escolhas interfiram diretamente na progressão. É estruturado com algo que eu descreveria como um adventure em primeira pessoa, com muita exploração e puzzles, e que ao invés de ter ações diretas, o jogador escolhe entre algumas opções de abordagem e ”rola” as suas chances de suceder um encontro de acordo com quão preparado este está. Por exemplo, ao invés de ter um sistema de combate direto, numa situação o jogador pode tentar usar a força como opção de solução para um conflito, e se ele tiver um nível aceitável dessa característica ele é bem sucedido, se não, sofre com as consequências.

O protagonista, Edward Pierce

O protagonista Edward Pierce tem sete habilidades diferentes: eloquência, investigação, força, psicologia, percepção, medicina e ocultismo. Ao se começar, assim como um RPG de papel e caneta, o jogador tem uma certa quantidade de CP (character points) para distribuir entre cinco das categorias (ocultismo e medicina só são aprimorados com descobertas do cenário e obtenção de documentos sobre os assuntos encontrados durante os capítulos). Ao longo da jornada se escolhe quais habilidades priorizar, impactando diretamente no rumo das ações. Eloquência te auxilia a obter mais informações quando dialogando com personagens e também a possibilidade de resolver problemas apenas na conversa, percepção facilita a descoberta de itens escondidos no cenário, investigação melhora sua capacidade de extrair informações dos fatos e construir os possíveis cenários de acontecimentos abrindo mais possibilidades de diálogos, e assim vai. Outro fator que muda com de acordo com suas decisões é sua sanidade. Quanto mais se interage com objetos e situações ligadas ao mito de Cthulhu, Pierce se vê mais investido com as características do ocultismo e menos racional e objetivo pode se tornar.

Edward é um detetive particular de Boston, e em 1924 ele é requisitado para investigar a morte dos três membros da família Hawkins na ilha de Blackwater. Pai, mãe e filho foram mortos num incêndio, que ainda gera muitas dúvidas se teria sido criminoso ou acidental. Quanto mais ele se aprofunda na investigação, mais aparente ficam as conexões entre o ocultismo e a tragédia da família.

Ao chegarmos em Blackwater, temos o que pra mim é o capítulo que melhor realiza a visão da Cyanide. No porto da cidade, temos uma grande área com vários NPC’s que nos oferecem tanto background da ilha e dos acontecimentos, como as primeiras pistas e dicas de qual deve ser nosso próximo passo com a investigação. Podemos prosseguir de vários meios diferentes, utilizando informações obtidas a partir de diálogos com alguns personagens para questionar outros, e de diferente items para se atingir o objetivo por múltiplos caminhos. Nesse momento eu realmente pude experienciar que esse sistema funcionava de uma forma onde a exploração minuciosa era recompensada e meu poder de escolha importava. Por conta de como abordei alguns NPC’s eu travei caminhos, falhei encontros e tive que seguir improvisando, afetando permanentemente minhas relações com alguns personagens. Foi uma ótima exibição da visão prometida.

O problema é que a cada novo capítulo isso vai se perdendo. Enquanto a primeira metade mantém o espírito de adventure investigativo, com bons puzzles, um bom roteiro e ótimas situações de diálogo entre o protagonista e os NPC’s, do meio para o fim o jogo toma uma forma linear, sem muita inspiração no aprofundamento do gameplay e com uma pegada mais jogo de horror psicológico, em que as qualificações do personagem e o sistema de insanidade perdem muito da sua a importância. Mecânicas de stealth são introduzidas nesse ponto, mas são extremamente básicas e mesmo assim não funcionam muito bem. O ritmo que já era negativamente afetado pelas longas telas de loading entre capítulos, piora com uma história que aumenta demais o ritmo sem dar tempo para a maioria dos personagens ganhar destaque. No geral a narrativa se mantém interessante mas os twists são previsíveis, e momentos que deveriam ter mais destaque para desenvolver alguns personagens passam rápido demais enquanto sequências com mecânicas e propostas entediantes de gameplay são alongadas além da conta.

Outra inconsistência está na apresentação artística do jogo. É facilmente notável que a qualidade é comprometida pelo orçamento, mas ainda sim destaco a ótima identidade visual criada para cenários interiores, bem mais atraentes que locações externas que contam com texturas de baixa qualidade e constante pop-in no cenário. Os modelos de personagem também não contam com muitos detalhes e tem um lip-sync descoordenado, mas a ótima performance dos atores salva um pouco.

VEREDITO

Call of Cthulhu tem uma proposta ambiciosa, e nos breves momentos que entrega tal proposta, é uma experiência muito atrativa. Os capítulos iniciais representaram bem a visão de trazer para os videogames um RPG investigativo de papel e caneta, com atmosfera de suspense e mecânicas envolvendo escolhas que realmente impactam o rumo da história. Porém quando ele se distancia destas propostas, se assimilando a um jogo de horror psicológico, a experiência se torna genérica, com pouco a oferecer além do uso do mito cósmico de Cthulhu. Se no começo da aventura eu conseguia me enxergar jogando múltiplas vezes para ver como diferentes decisões levariam a diferentes resoluções e consequências, no final,
já cansado das pouco inpiradas seções de gameplay da última metade do jogo, e sem conseguir me conectar de forma mais profunda a esse mundo, eu pouco me importava com o rumo da narrativa e seus personagens. É uma pena não termos constantemente a qualidade encontrada nas primeiras quatro ou cinco horas.

NOTA: 6.4/10


O review foi baseado em uma cópia de PlayStation 4 fornceida pela Focus Home Interactive

Felipe Mesquita