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REVIEW: Observation (PC, PS4)

OBSERVATION

Data de lançamento: 21 de Maio de 2019
Desenvolvedora: No Code
Publisher: Devolver Digital
Plataformas: PC, PS4


Ao meu ver, se bem executados, os videogames têm uma vantagem imensa em cima de outros meios de arte para contar histórias. Não é atoa que temos visto inclusive empresas como a Netflix tentando borrar a barreira entre filmes, séries e videogames. Os gigantes do streaming começaram seus testes de conteúdo interativo ainda em 2017, com programas voltados para crianças, e recentemente o serviço recebeu um port de Minecraft Story Mode e também Black Mirror: Bandersnatch, sua primeira experiência do tipo voltada para adultos. Claramente a Netflix entende o potencial de storytelling que o engajamento inerente de experiências como o videogame oferece, e com Observation, o mais novo jogo dos Escoceses da No Code, temos mais um grande exemplo disso.

Se fosse categorizar Observation dentro de um gênero tradicional de videogames, diria que ele é um Adventure moderno. Experienciamos o jogo numa perspectiva um pouco diferente, pelas lentes de S.A.M OS (ou apenas SAM para os íntimos), a inteligência artificial e sistema operacional da estação espacial internacional ‘’Horizon’’. A narrativa começa com SAM estando danificado e majoritariamente inoperante após uma aparente colisão da estação. Interagimos com a Doutora Emma Fisher, que, também sem entender muito do que está acontecendo, tenta contato com os outros tripulantes da estação. Emma nos bota online nos sistemas básicos da rede para que possamos operar as câmeras dentro dos diferentes módulos da estação. É assim que enxergamos e interagimos dentro da ‘’Horizon’’, sejam pelas câmeras fixas ou através de esferas móveis (que lembram os núcleos de Portal) também munidas de câmeras.

Quando digo que vejo Observation como um adventure, é porque o gameplay consiste basicamente em resolver puzzles ligados a interface da estação espacial, usando de base para as soluções, instruções de Emma ou documentos espalhados pelos diferentes módulos. Usando nossas funções, destravamos alçapões para abrirmos novos caminhos, sincronizamos com os computadores para encontrarmos dados importantes e ativamos os diversos sistemas da ‘’Horizon’’. Para não simplificar demais a vida do jogador, estas soluções incluem variações de puzzles de memória, lógica e indicações visuais nos ambientes. Não são desafios necessariamente difíceis, mas em alguns casos podem ser trabalhosos. Eu até joguei com papel e caneta do lado para anotar algumas coisas e facilitar a solução.

O trabalho de apresentação do jogo é fantástico, botando todas estas situações em contexto com o que se, pelo menos da visão de leigos, esperaria de uma estação espacial. A interface é construída de uma maneira onde a sensação é de realmente estarmos observando e trabalhando nas capacidades e limites de um uma inteligência artificial/sistema operacional. Cada sistema da Horizon tem seu visual própria, então os puzzles dificilmente vão te dar uma sensação muito forte de repetição. Todo esse trabalho detalhado de design das interfaces , combinado com a impressionante representação da estação espacial e a forte performance dos atores fazem deste um projeto muito imersivo.

Mas Observation não é simplesmente um retrato do dia de uma inteligência artificial, é um jogo que apresenta um suspense de sci-fi recheado de mistérios e momentos tensos. A atmosfera vazia não só da estação mas do espaço sideral como um todo naturalmente puxa os tons de terror, onde ficamos com medo por realmente não sabermos o que pode aparecer na nossa frente. O jogo é estruturado quase como uma série de TV, tendo claramente momentos de corte onde geralmente somos surpreendidos por alguma virada na narrativa. O começo inclusive é um show de ‘’episódio piloto’’, são aproximadamente trinta a quarenta e cinco minutos estabelecendo o tom da aventura, introduzindo o básico de gameplay e terminando com um grande cliffhanger, seguido por uma sequência de créditos iniciais que com certeza deixa para trás muita série grande por aí. Obviamente sem ir muito a fundo na história para evitar spoilers (até porque além da breve introdução que descrevi aqui, tudo pra frente seriam spoilers relativamente grandes), os rumos que ela vai tomando não são necessariamente surpreendentes. Eu diria inclusive que muitas das grandes viradas são até previsíveis, mas a progressão momento a momento da história é tão engajante, que essa se torna uma experiência extremamente intrigante. E embora eu até ache que tem momentos onde os ”capítulos” se alongam demais, pra no final ocorrer uma leve correria para finalizar a história, no geral acho que foi uma narrativa bem constrúida.

Talvez o maior problema mesmo esteja em quão incômodo alguns controles podem ser. Se movimentar com as esferas não é uma das tarefas mais agradáveis (e talvez esse seja o intuito mesmo pois estamos operando em ‘’zero-g’’), rolando até algumas quedas de frame incômodas, e as vezes navegar pelos menus por mais que passe uma sensação muito realista, não é exatamente a experiência mais intuitiva. Também tive problemas com o sistema de checkpoint do jogo, certa vez tendo que imterromper uma sessão de gameplay e perdendo uma boa parte de progresso no caminho. Num jogo onde possivelmente alguns vão julgar seu gameplay como monótono, fazer com que o jogador tenha que passar pela mesma experiência múltiplas vezes por falta de checkpoint não é uma boa ideia.

VEREDITO

Não é que Observation seja revolucionário em mecânicas de gameplay ou narrativa, mas o que torna este projeto especial é a incrível execução e utilização da natureza interativa dos videogames para se contar um baita suspense de Sci-fi. Pode soar clichê, mas as situações são tão bem contextualizadas e implementadas que você realmente se sente parte importante e operante desta história.

NOTA: 8.2/10

Felipe Mesquita